PT | EN

 

Centenário da Empresa Transformadora de Lãs, Lda. (1920-2020)

 

Cumpre-se hoje, em 28 de agosto, os 100 anos da fundação da “Empresa Transformadora de Lãs, Lda.”

Foi no ano de 1920 que um conjunto de sócios instituiu uma sociedade por quotas, de que faziam parte o "Banco do Alentejo" (600.000$00), numa operação que envolveu uma parte significativa dos fundos próprios do banco e dos seus movimentos de crédito, "G. Morão & Companhia, Lda." (50.000$00) e "Carneiro & Companhia", Lda. (50.000$00). O pacto social da sociedade foi estabelecido por escritura de 28 de agosto de 1920, em Lisboa,com o objetivo de fabricar fios penteados ou de estambre para tecidos e malhas com lã nacional, proveniente do Alentejo.

A primeira ata de reunião da Assembleia Geral da sociedade decorre em 30 de setembro de 1920, comparecendo quatro representantes dos três sócios, onde se determina a compra dos edifícios fabris e terrenos situados na Fonte do Lameiro e no Pisão Novo ou Charatinha ao industrial João dos Santos Marques, proprietário da fábrica de lanifícios Santos Marques & C.ª, por 150.000$00, bem como parte da Fábrica da Estrela, no valor de 7.030$94, sendo determinado o montante e indemnizações aos vendedores pela cessação de trabalho, desmontagem e deslocação de maquinismos.

Em 1920, a “Empresa Transformadora de Lãs, Lda.” confronta-se a oeste e a sul com a ribeira da Goldra e duas fábricas de lanifícios, a de Rafael Morão e a Fábrica Estrela, designando-se, nesta data, a rua que as separa de “Caminho das Três Fábricas”.

O edifício, projetado por Ernesto Korrodi, tornou-se um magnífico exemplar da arquitetura industrial da Covilhã, tendo sofrido, entre as décadas de 20 e 60 do séc. XX, várias ampliações e modernizações para adaptação a novas fontes de energia e novos maquinismos e para melhoria das condições de trabalho dos operários.

Nos anos 30 do séc. XX, foi considerada a mais moderna fábrica da Covilhã, com um edifício novo, uma central elétrica de mais de 400 cavalos instalada em 1928 e 1940, instalações amplas na fabricação, nos escritórios e nos armazéns. Chegou a empregar 806 operários, de acordo com o inquérito da FNIL de 1937, entre homens e mulheres, produzindo além de tecidos, os fios penteados que abasteciam cerca de 50% da indústria da região. Para além do mercado interno, exportava os fios penteados para os Países Baixos, Alemanha e Inglaterra. Foi também reconhecida como um modelo na gestão e administração exemplar do seu negócio. Um dos seus diretores mais distintos foi o advogado Fernando Carneiro, representante do sócio “Carneiro & Companhia, Lda.”, tornando-se, de 1931 a 1939, ele próprio sócio da "Empresa Transformadora de Lãs, Lda."

No primeiro balanço da empresa, datado de 31 de dezembro de 1921, consta no inventário “Lã Saragoça”, “Fios diversos”, “Fios de algodão”, na Fabricação flanelas de estambre preta e azul; nas máquinas: dois “bobinadeiros” completos de 48 fusos, duas balanças, duas retorcedeiras de 200 fusos, um torcedor inglês para fantasia de 100 fusos, um “bobinadeiro” de 40 tambores, um “bobinadeiro” pequeno de 10 fusos, uma balança e pesos para pesar os fios das embobinadeiras, uma “Assembleuse” de 60 tambores, três teares de ferro e acessórios, bem como um dínamo Siemens, um motor de 5 HP, uma turbina e tubagem, um motor a gás. No inventário e balanço de 1929, o património móvel aumentou significativamente, desde as existências de matérias-primas, entre lãs e fios penteados, às máquinas distribuídas pela secção de “Tecelagem” (com nove teares belgas e três teares alemães), pela Serralharia, pela Carpintaria, pela Casa da máquina a vapor, pelo Armazém de fazendas, pelo Armazém de mechas, e, no Corpo principal, máquinas diversas, de Cardação (um lobo, duas cardas duplas e uma máquina de esmerilar), de Penteação (duas intersectings, cinco penteadeiras e uma liseuse), de Preparação (cinco intersectings, cinco máquinas de estiragem, três bobinadeiras), de Fiação (quatro fiações de carruagem de lã penteada de 640 fusos e dois contínuos de fiar) e de Torcedura (seis torcedores de 100 e 200 fusos).

Já como Sociedade Anónima desde 1988, e em contexto de declínio, encerra em 1993, e, em 1994, a Universidade da Beira Interior adquire os imóveis fabris, casas anexas e reservatórios de água para aí fazer nascer a Faculdade de Engenharia, em maio de 2000. Para além da volumetria e fachada originais do edifício, permanecem preservados a fachada do edifício principal, com um painel de azulejos policromos que anuncia “Empresa Transformadora de Lãs, Lda.”, numa composição de motivos florais que emolduram a imagem de uma fiandeira, encimada por duas estátuas de Mercúrio e Minerva, alegorias do comércio e da indústria, a guarda de ferro fundido de desenho Arte Nova da porta-janela, o portão de ferro que assinala a data “1920”, os painéis decorativos de azulejo do átrio daentrada principal alusivos à lã e à indústria fabricados pela fábrica “Aleluia” de Aveiro e o quadro eléctrico na antiga casa das máquinas. Alguns equipamentos têxteis, mobiliário, máquinas e utensílios de escritório e, sobretudo, o arquivo empresarial integral (1920-1993) estão salvaguardados e encontram-se visitáveis quer na exposição permanente e nas reservas do núcleo da Real Fabrica Veiga, quer em consulta presencial no Centro de Documentação/Arquivo Histórico. As memórias desta fábrica permanecem particularmente vivas nos registos escritos da administração, da contabilidade e da fabricação, e a aguardar por novas investigações que conduzam a estudos sobre o desenvolvimento desta indústria e dos seus atores principais, os fabricantes, os trabalhadores e as empresas.

Covilha, 28 de agosto de 2020