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Meia hora no Museu para conhecer uma peça

17 de fevereiro | Real Fábrica de Panos

Tear de pau

Datação: ca. de 1870
Proveniência: Área de Unhais da Serra
Oferta de João Manuel Afonso. S. Sebastião. Ponte das Três Entradas
Matéria: Madeira, ferro
Dimensão: Alt. 210 cm x Larg. 135 cm x Comp. 280 cm

O tear manual grande, também conhecido como "tear de pau" devido à sua construção em madeira, integra-se na exposição permanente do Núcleo das Tinturarias da Real Fábrica de Panos, do Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior. É um tear manual constituído por duas perchadas, sendo também apelidado de tear de pisos ou tear liso. Encontra-se em exposição na Sala da Tinturaria dos Panos de Lã como o instrumento de trabalho mais representativo da operação de tecelagem e da sua importância tanto na Covilhã, centro histórico de especialização do fabrico de panos, como na região da Serra da Estrela  “donde tudo são lans e panos”.

A tecelagem é a operação que permite a conversão do fio em pano, através do cruzamento e entrelaçamento dos fios da teia nos fios da trama, conduzidos por uma lançadeira de madeira e ferro, de acordo com uma ordem previamente determinada.

Os teares grandes produziam todos os tipos de panos. A largura destes teares variava segundo o género de tecido que se pretendia fabricar, podendo atingir os 2,25 m, mantendo-se todavia o mesmo comprimento para todas as larguras.

Este tear, originário da Covilhã, destinava-se a ser trabalhado preferencialmente por homens. Apesar de ter laborado em Unhais da Serra, veio de S. Sebastião, Ponte das Três Entradas, de uma oficina de tecelão ao domicílio. Datado de cerca de 1870, representa uma das mais importantes inovações tecnológicas realizadas no campo da tecelagem oitocentista: a introdução da lançadeira volante de tipo Kay (1733), que permitiu aumentar a capacidade de produção da tecelagem, induzindo à posterior inovação na fiação, acontecimento este de grande significado nas origens da Revolução Industrial.

No séc. XVIII, uma das finalidades da fundação da Real Fábrica de Panosfoi a concentração no mesmo edifício de várias operações de fabrico até então dispersas. No primeiro piso do edifício, para além de outras funcionalidades, localizava-se uma casa para os teares grandes, uma casa para os teares pequenos e um corredor de entrada da casa dos teares. Apesar de a concentração manufactureira de iniciativa estatal ter sido  iniciada, na Covilhã, ainda no séc. XVII, sendo  reforçada com a criação da Real Fábrica de Panos, a maior parte dos tecelões continuou a realizar o seu trabalho em regime doméstico e artesanal. Os que estavam organicamente integrados na manufactura recebiam dela o equipamento fabril necessário à laboração, os outros trabalhavam de forma independente, dispondo de todos os equipamentos necessários.

Do ponto de vista tecnológico o tear do séc. XVIII, de madeira, de lançadeira manual e de perchadas não se afastava muito da tecnologia instalada no final da Idade Média, apesar de evoluir para um maior aproveitamento das suas possibilidades, quer em função das hipóteses de número de fios a utilizar, quer do género de panos a confeccionar. Nas manufacturas havia teares grandes e teares pequenos. A diferença entre eles radicava mais na grossura dos pentes do que propriamente em outra qualquer especificidade tecnológica.

Os “teares de pau” acabaram por ser sistematicamente destruídos pelas leis do Condicionamento Industrial, em vigor a partir dos anos 30, do séc. XX, uma vez que, no âmbito do proteccionismo à indústria e da mecanização da tecelagem, a posse de um número variável de teares manuais permitia, com a sua subsequente inutilização, a aquisição do alvará para a instalação de um tear mecânico. Este tear é um dos raros exemplares que subsistiu a esta destruição sistemática, por ter continuado a trabalhar em regime doméstico e artesanal numa região que ficou à margem da industrialização.

Ver Cartaz

 


Para mais informações:
Secretariado do Museu de Lanifícios da UBI
Tel.: + 351 275 319724 | E-mail: muslan@ubi.pt